Quando adolescente, eu estava quase sempre sozinha. Tive uma
educação super-protetora (castradora poderia dizer), o que significa que passava muito tempo com me, myself and
I: “superprotegida” em meu quarto, mas à mercê de uma mente caótica.
Meus pensamentos ficavam assim... quicando de uma parede pra
outra, atingindo velocidade, até conseguir sair pelos vãos das grades da janela.
Chegavam os surtos de ansiedade, do “e agora”, do “sair
correndo pra qualquer lugar”. Mas pra onde, meu Deus. Pra onde? E aquela onda
enorme e tsunâmica de pensamentos que eu não tinha como dar vazão acabava por me afogar sempre: a mente deseja executar coisas no plano real, o corpo pede pra liberar a energia
contida nele. Mas quando se abre a porta do "universo particular" e a visão é de
rostos incrédulos, confusos, decepcionados, de reprovação... o peso é tal que
as costas se encurvam e voltam de onde vieram.
Lembro de algumas vezes ter lutado pra sair do quarto, sair
da culpa de querer me expor um pouco ao mundo, de fazer coisas novas. Os
resultados foram um tanto catastróficos e hoje vejo, não somente pra mim. Minha
família tem alma de artista, muito dramáticos, perfeitos pra operas
shakespearianas. Frases do tipo: “você não gosta da sua família”, “você não se
importa conosco e quer distância de nós”, “por que está sempre com essa cara de merda?”, “reage, isso é
falta de ocupação”, “você é sempre do contra” foram me silenciando aos poucos. Engoli
a seco um caos que não
conseguia por fim. Tentar compreender é muito difícil e não estou sendo irônica.
Reagir ao que não se compreende não é tão difícil assim.
Caminhando pra idade adulta, e tendo de entrar pro mundo “real”
eu já era uma pessoa cheia de inseguranças e medos. Mas claro, como todo bom
TDAH, me joguei nas possibilidades que se abriam diante de mim. Em todas. Depois de
alguns anos acabei por descobrir o que de melhor faço nessa vida: Desistir. Nada se
comparava a essa fantástica habilidade adquirida quase que naturalmente: empolgar-se,
começar e... desistir. Simples assim.
O que fazer? Pra onde ir? Cada dia uma
resposta. Cada dia uma frustração. Por quê? Emocionalmente: uma hora bem, uma
hora mal, uma hora feliz, outra miserável, uma hora dócil, outra um monstro. Desejei
tanto que alguém, um alguém qualquer, perdido por aí, me cutucasse as costas,
me desse um abraço e me dissesse que ia ficar tudo bem. Que havia um caminho.
Passei assim, debaixo de uma montanha de confusão,
desorganização, esquecimentos, frustrações, lágrimas, impulsividades, perdas e tristezas solitárias
por anos. Tentei tirar o cocô grudado nos meus tamancos, esfregando os pés numa
moitinha, mas nada. Ele havia grudado pra valer.
Foi só quando já não havia mais nada que minha cabeça
pudesse tirar de mim que parei no médico. E foi só assim que minha família,
especialmente meu pai, passou a me ver diferente: quando cheguei do consultório
médico com uma pá de receitas na mão: antidepressivos,
estabilizadores de humor, ritalina, rivotril.
Faz um tempo já, devaneando no meu quarto, olhando pela janela gradeada, levantei
de súbito (ah impulsividade...!). Tantos anos limitada a olhar por frestas...
Peguei uma chave de fenda e um alicate e removi as grades da janela. Não posso descrever o prazer de tirar cada parafuso. Sentei nela com os pés pra fora e o mundo me pareceu, de algum modo, diferente.