sábado, 29 de dezembro de 2012

Anotações de aula.

Por algum motivo desconhecido da natureza, guardei o pedaço de folha de fichário em que escrevi essas duas notinhas. Na época eu havia mudado de uma escola de bairro pra uma bem maior, no primeiro ano do colegial (não sei como se chama hoje).
Muita gente fala que prestar atenção na aula é o segredo pra não precisar estudar em casa. Acho que no meu caso, se deu o contrário. Ler sozinha em casa o conteúdo de aulas monótonas fez a diferença.
Bem, deve ter feito, não? Já que concluí o ano com boas notas rs

16/8/01
13:32 – Aula de ética e cidadania. Coordenador Alexandre na frente. Sono, muito sono. Vontade de ir pra casa e deitar na minha cama e sentir o ventinho vindo de fora bater fresquinho no rosto. Sentir paz, sem ninguém. Minha mãe na sala passando roupa ou na cozinha fazendo o café.
Na lousa, “Principais conceitos, cap. 1”, o que é política... ética... blábláblá... Ahhhhhhhhh!!!
Minha cabeça está pesando, pesando...
Se ele me pega essa folha...! 

22/8/01
10:37 – Aula de português. Ontem fui à minha antiga escola. Sentei-me na cadeira que era minha. Lembrei-me do Rafael, que de sapo virou príncipe (o vi meses atrás e realmente é outra pessoa – infinitamente melhorada).

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A boa e velha camisa do fracasso.

Voltei do médico. Liguei pro meu irmão e pedi pra ele me levar de carro numa farmácia que vende remédio mais barato, pra facada doer menos. Pouco antes das 10pm ele aparece cansado pra me levar.
Uma chuva do caramba. Meu pai aproveitou e pediu pra eu comprar remédios pra minha avó. Lá fomos nós.
Meu irmão estacionou o carro, eu desci na chuva e corri pra farmácia. 
Cheguei lá.
Coloquei a mão na bolsa.
E
Só tinha:
minha blusa e duas chaves (da mesma porta, by the way).
Corri pro carro, sentei no banco, desacreditada. Procurei debaixo dos bancos, recitando o famoso: "não é possível, não não não é POSSÍVEL".
A certeza absoluta de que eu tinha colocado a carteira na bolsa me fez olhar e olhar a mesma bolsa aberta - sem divisórias! - muitas vezes. E passava a mão dentro na esperança de que meus olhos estivessem enganados. rs 
Em algum momento em que eu procurava as chaves em casa, pra sair, devo ter deixado a carteira.
No carro, desolada, vesti a boa e velha camisa do fracasso e ouvi a mais plausível e irônica explicação possível:
- Calma mana. Se você não fosse esquecida, não precisaria de remédio. É exatamente por isso que você está aqui.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

'Be the better man' - Charles Xavier

Pensei muito esses dias naquela quantidade significativa de palavras que saem de uma vez, num tiro, da boca de uma pessoa. Quantas seriam realmente necessárias pra atingir um ponto?
É desesperadora a sensação de não conseguir se fazer entender, mas existe um momento em que a mera tentativa ou a insistência nisso passa pro universo do ridículo. Eu me vejo às vezes, me observo de alguma esquina. Quantas vezes o silêncio teria sido a melhor resposta? Quantas vezes eu deveria ter virado as costas, simplesmente, e passado adiante? 
Quantas vezes as palavras acabam ganhando calibre, a melhor defesa vira o ataque e a vitória... é vitória mesmo? Hoje percebo, não sem um certo sentimento de embaraço, que a verdadeira vitória é ser “superior” e conseguir abandonar um ring imaginário.
Escuto muitas críticas à racionalidade. Ser passional e confiar no coração é algo que se prega em especial demasia hoje em dia. E me atrevo a dizer que é exatamente por isso que muitas vezes vemos seres humanos agindo e interagindo de formas animalescas e se mostrando orgulhosos disso. 
Ser emoção, ser sensível, ter coração não significa que a pessoa tenha de abandonar algo tão importante, útil e amigo como o cérebro e a capacidade de ter e demonstrar discernimento. Muitas vezes o tratei como coadjuvante e rejeitei a ajuda que o lado racional poderia ter me provido.
Não digo que defender um ponto de vista ou falar do que se acredita deva ser simplesmente inibido. Não somos seres que podem ser facilmente acuados, acho ainda que isso seria praticamente impossível. Mas quando nos sentimos verdadeiros revolucionários anarquistas na conquista pela justiça, me pergunto: acreditamos realmente na “justiça” que pregamos?
Se sim, então por que gastamos uma ENORME quantidade de palavras no empreendimento perfeitamente descrito por Renato:

“...o que eu mais queria
era provar pra todo mundo
que eu não precisava
provar nada pra ninguém.”?


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Compulsividade, mas com estilo.

Uma das piores coisas que podem acontecer: são 23:20. Daqui a pouco 2:20, 3:20... e eu assim - 0.0
Tento ficar na cama, conto corvinhos... mas se chega às 3, tenho que levantar porque me ataca uma péssima e incomoda fome, que não vai me deixar dormir mesmo. Fico concentrada no buraco do estômago e tenho que ir à geladeira. E quando tudo está sob o santo silêncio da madrugada, as coisas fazem um barulho fora do normal. Nunca pensei que a tentativa de abrir um saco de pão fizesse tanto barulho. Faço um shiii bem baixo pra mim mesma e continuo na procura de algo pra colocar no pão que eu peguei com muito sacrifício pra não acordar ninguém.
Engraçado que...  essa energia que me vem de vez em quando, meio sem aviso, não é uma energia normalmente produtiva, porque ela me deixa perdida e quase sempre mais, muito mais atrapalhada.
É exatamente nessa hora também que, além da falta de sono, mais aparecem os comportamentos compulsivos. Sem perceber, repetimos freneticamente ações que prometemos a nós mesmos que teriam fim, como arranhar as mãos, ou a barriga, ou os joelhos, ou a nuca... enfim. Nunca mais deixei as unhas compridas, corto sempre bem curtas. A barriga eu encapo com esparadrapo na parte afetada. Pensei em fazer o mesmo com alguns dedos das mãos que já criaram calos. Uma amiga que tem problema similar fez isso e ficou consolada ao ver numa foto, seu mais novo estilo fashion.



'Equilíbrio! Equilíbrio!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!'

sábado, 10 de novembro de 2012

Alguém na escuta?

Auto-controle Parte I - Falar:

Preciso escrever sobre auto-controle novamente. (Certamente já o devo ter feito em posts anteriores, mas enfim). A luta pelo auto-controle é algo tão recorrente em minha vida que por vezes o vejo como o Papa-léguas, sendo eu o Coiote. Meu psiquiatra me disse em consulta ontem que tudo na vida tem seu lado bom: ´ Em algumas circunstâncias pode ser vantajoso agir de modo menos padronizado ou “certinho”, passando uma sensação de desprendimento e independência de algumas regras sociais.' Ok! MAS: 'Em um grupo social, a falta de atenção e capacidade de perceber sutilezas dos outros faz com que alguns atos sejam considerados “sem noção”" - é péssimo quando as pessoas olham a gente com cara de "hein?!":

- O que achou da obra fantástica de semiótica de Eco? Creio que ele se aproxima mais das concepções peircianas do que das concepções europeias, não acha?
- É... Côco.
(Meu! Como assim? Côco?! De onde veio... "côco"? rs O que "côco" tem a ver com semiótica e Umberto Eco? Mas é assim... a pessoa fala e eu solto palavras aleatórias. Elas simplesmente voam estupidamente da minha boca.).

Não se pode esquecer também que "em casos mais extremos, o baixo controle provoca comportamentos opositivos" (mas por que temos tanto problema com os limites e padrões, alguém pode me dizer?) Já abri a boca pra defender uma super ideia natural e percebi que aos poucos os olhares foram ficando disfarçadamente escandalizados. Amigos mais próximos vinham depois me perguntar porque eu havia falado aquilo no meio de todo mundo. (Que droga! Porque eu não percebi?)

Auto-controle Parte II - Escutar:

Pensei um pouco mais sobre essa questão numa viagem recente.
Conversando com amigos dias atrás, falamos sobre o filme O solista. 
O filme fala sobre um jornalista que, em busca de uma história pra sua coluna, acaba encontrando nas ruas de Los Angeles um morador de rua com excepcional talento musical. O jornalista passa o filme tentando ajudar esse morador de rua (que possuía, além do talento pra música, um sério problema mental).
Pois bem, um amigo ia dizendo que às vezes ele tinha medo de ficar como um dos personagens do filme (que todos deduziram ser o do jornalista Steve Lopez, interpretado por Downey Jr.). Ele corrigiu: medo de ficar como o morador de rua. Os outros no grupo franziram a sobrancelha: esquizofrenia?! E começaram a perguntar se ele costumava ouvir vozes (hauhauhauhauha). Pareciam meio preocupados.

A explicação dele: é a sensação de estar ficando louco. (É cara... não é metáfora, infelizmente).
Ouvir coisas demais parece não ser privilegio apenas dos esquizofrênicos. 
Parece que tudo fala, céus! As pessoas falam, as responsabilidades falam, os desejos falam, a culpa fala, obrigações sociais falam, o trabalho fala, o cansaço físico, mental e emocional fala, os parasitas falam e a solidão dá aquele berro.

Não sei quem começou a falar que a tristeza era muito difícil realmente. Foi aí que eu indexei algo que já sabia: o ponto não é nem a tristeza, tristeza em si. A tristeza nos deixa inertes e inofensivos. O problema mesmo é quando vem a falta de controle. Entrar nessa zona traz tanto, mas tanto prejuízo que quando sinto o auto-controle abandonando-me sorrateiramente, o desespero vai tomando conta do todo.
Você quer continuar sorrindo, como estava, amoroso, como estava, escutando e respondendo como gente normal faz, assim como estava.
Mas... é estranho né? Uma hora você é capaz. Em outra, simplesmente não.

Eu ouço o que me falam e tento mostrar uma casca de sanidade, como se eu só estivesse escutando aquela pessoa. O problema é que todas as vozes que se confundem dentro da minha cabeça, ninguém mais escuta. Ou talvez escutem. Os esquizofrênicos...

terça-feira, 30 de outubro de 2012

The show must go on!!

pelo amor de deus,me diz se é possível ser feliz de verdade sendo um portador de tdah,se um dia você finalmente enxerga a felicidade,ou será sempre uma luta entre o que é real e o que é fantasia?


Recebi esse comentário no post anterior. Fiquei pensando nele e a primeira conclusão que cheguei foi: o TDAH ou qualquer outro transtorno relacionado ao emocional faz do portador alguém especialmente empático. A gente sente no peito o que o outro quis dizer.
Uma outra amiga muito querida foi diagnosticada faz alguns meses como sendo portadora do Transtorno Borderline. Em resposta a um e-mail meu ela disse estar sofrendo de constantes crises de choro e de ter a sensação de enlouquecer literalmente. Sei o que é. E sinto.

Buscamos uma convivência pacífica com nós mesmos, desejamos poder habitar nosso próprio corpo confortavelmente, lutamos pela sanidade. Essa busca também se dá com relação ao mundo à nossa volta, em especial com quem convive conosco.
As pessoas andam cada vez mais mesquinhas em termos de sentimentos. Economizam compreensão e carinho, generosidade e empatia, como se essas coisas fossem acabar se demonstradas em abundância. E isso pode ser uma via de mão dupla, uma vez que nós, portadores de transtornos emocionais, muitas vezes julgamos quem não sofre o mesmo calvário, e portanto, não entende certos aspectos de nossos sofrimentos.
Creio, como já disse antes, que a melhor arma a nosso favor seja o conhecimento. Não tenhamos vergonha de explicar a quem amamos nossos mais profundos sentimentos. Sejamos humildes pra pedir perdão quando erramos e magoamos. Tenhamos à nossa volta pessoas que nos valorizem por nossos (não poucos) esforços e que nos ajudem a tirar de nós o nosso melhor.

Agora, voltando à pergunta do início:
Minha amiga, me atrevo a dizer que tudo isso é sempre uma luta. Se existem comorbidades então é uma luta dupla. Quando a depressão está atrelada, por exemplo, (o que é muito comum) o desânimo e a tristeza fazem um considerável peso extra. Entendo bem essa linha fina entre real e fantasia (e muitas vezes entre o real e o completo desespero).
MAS, a boa notícia que tenho pra você é: somos duros, somos fortes, criamos resistência diante das agruras que nos sobrevêm.  Nossa vida é feita de pequenas e às vezes grandes batalhas. Choramos, nos desesperamos, levantamos e seguimos, sempre um pouquinho mais. Cada pequena vitória traz um sentimento de paz que vem da esperança de que sim, vamos sobreviver, mais experientes, mais teimosos! rs

Não vamos desistir de nos tratar, de continuar adquirindo conhecimento, de  tentar ser melhores para nós mesmos e para as pessoas que amamos (e que nos amam como verdadeiramente somos). Não vamos desistir de buscar compreensão e de compreender, porque o contrário, a frieza e a incompreensão contaminam e vão se espalhando aos poucos, nos deixando à mercê de uma enorme carência. Carência de humanidade, de ser Humano...
E não precisa ser assim.

Se lutarmos em prol disso, acredito realmente que é possível “enxergar a felicidade”. 
(E tenha a certeza de que não está sozinha. Mesmo! rs)




         

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O que nos prende?

Quando adolescente, eu estava quase sempre sozinha. Tive uma educação super-protetora (castradora poderia dizer), o que significa que passava muito tempo com me, myself and I: “superprotegida” em meu quarto, mas à mercê de uma mente caótica.
Meus pensamentos ficavam assim... quicando de uma parede pra outra, atingindo velocidade, até conseguir sair pelos vãos das grades da janela.
Chegavam os surtos de ansiedade, do “e agora”, do “sair correndo pra qualquer lugar”. Mas pra onde, meu Deus. Pra onde? E aquela onda enorme e tsunâmica de pensamentos que eu não tinha como dar vazão acabava por me afogar sempre: a mente deseja executar coisas no plano real, o corpo pede pra liberar a energia contida nele. Mas quando se abre a porta do "universo particular" e a visão é de rostos incrédulos, confusos, decepcionados, de reprovação... o peso é tal que as costas se encurvam e voltam de onde vieram.
Lembro de algumas vezes ter lutado pra sair do quarto, sair da culpa de querer me expor um pouco ao mundo, de fazer coisas novas. Os resultados foram um tanto catastróficos e hoje vejo, não somente pra mim. Minha família tem alma de artista, muito dramáticos, perfeitos pra operas shakespearianas. Frases do tipo: “você não gosta da sua família”, “você não se importa conosco e quer distância de nós”, “por que está sempre com essa cara de merda?”, “reage, isso é falta de ocupação”, “você é sempre do contra” foram me silenciando aos poucos. Engoli a seco um caos que não conseguia por fim. Tentar compreender é muito difícil e não estou sendo irônica. Reagir ao que não se compreende não é tão difícil assim.
Caminhando pra idade adulta, e tendo de entrar pro mundo “real” eu já era uma pessoa cheia de inseguranças e medos. Mas claro, como todo bom TDAH, me joguei nas possibilidades que se abriam diante de mim. Em todas. Depois de alguns anos acabei por descobrir o que de melhor faço nessa vida: Desistir. Nada se comparava a essa fantástica habilidade adquirida quase que naturalmente: empolgar-se, começar e... desistir. Simples assim.
O que fazer? Pra onde ir? Cada dia uma resposta. Cada dia uma frustração. Por quê? Emocionalmente: uma hora bem, uma hora mal, uma hora feliz, outra miserável, uma hora dócil, outra um monstro. Desejei tanto que alguém, um alguém qualquer, perdido por aí, me cutucasse as costas, me desse um abraço e me dissesse que ia ficar tudo bem. Que havia um caminho.
Passei assim, debaixo de uma montanha de confusão, desorganização, esquecimentos, frustrações, lágrimas, impulsividades, perdas e tristezas solitárias por anos. Tentei tirar o cocô grudado nos meus tamancos, esfregando os pés numa moitinha, mas nada. Ele havia grudado pra valer.
Foi só quando já não havia mais nada que minha cabeça pudesse tirar de mim que parei no médico. E foi só assim que minha família, especialmente meu pai, passou a me ver diferente: quando cheguei do consultório médico com uma pá de receitas na mão: antidepressivos, estabilizadores de humor, ritalina, rivotril.

Faz um tempo já, devaneando no meu quarto, olhando pela janela gradeada, levantei de súbito (ah impulsividade...!). Tantos anos limitada a olhar por frestas...
Peguei uma chave de fenda e um alicate e removi as grades da janela. Não posso descrever o prazer de tirar cada parafuso. Sentei nela com os pés pra fora e o mundo me pareceu, de algum modo, diferente.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Faz sentido isso?


Sinto o cheiro da desordem, já tão infelizmente conhecido, tão infelizmente familiar. Conhecê-lo, identificá-lo a distancia é uma façanha que não gostaria de realizar tão bem.
Percebo que a rotina normal vai ficando comprometida. As coisas continuam sendo realizadas, mas com um aparente peso extra.
Será que seria ela? A fiel escudeira que jamais, nunca, never ever me abandona? Oh! Santo desesperinho! É sim! É a maldita falta de sentido.
Por que as coisas perdem o sentido?
Depois de saborear conquistas significativas (como tenho experimentado), constato que a rotina me une à Drummond em sua Cidadezinha Qualquer:
- Eta vida besta, meu Deus!

Isso escangalha com a vida de qualquer um.
Vou migrar dessa Cidadezinha pra sala do meu querido e amado médico (que muito tem me ajudado) e dizer a ele que definitivamente não quero voltar pra lá tão cedo.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Do lado de fora.

Neste minuto estou sentada em frente à janela do meu quarto que dá de cara com meia dúzia de árvores (que ainda sobrevivem em São Paulo por estarem no quintal da minha avó) e sentindo um ventinho muito bom neste dia de calor. A janela de madeira com tinta azul descascada dá um tom aconchegante pro lugar.
Daí me assalta um quadro mental que não pertence a este lugar nem a esta hora...
Desde criança me lembro de sentar na janela e olhar o nada, aperfeiçoando a arte milenar de imaginar a vida em suas mil possibilidades, uma mania de sempre querer ver ou estar mais além, sejam lá onde esse além for.
Acho incrível como certas imagens puxam milhões de quadros mentais relacionados e modulam emoções. Dão gás, adrenalina, ânimo, saudades, força...
Agora o quadro é: uma sala grande e clara, bem ventilada, com tacos de madeira no chão, portas largas e um piano. Janelas de madeira, pintadas de verde, que dão de frente pra ruas arborizadas. Acho que esse lugar seria uma escola de artes. E em outras salas haveria telas e tintas e pedações de madeira pra esculpir.
Será que se eu olhasse por essas janelas verdes, eu me veria... olhando de uma janela azul descascado?
TDAHs realmente viajam e viajam pra valer!

Mas ok. Tirando as janelas do meu quadro mental... fala sério, quem é que consegue se concentrar com tanta coisa acontecendo do lado de fora de TODA e QUALQUER janela???



quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Do it.

Impulsividade traz lá seus infortúnios tristes.
No entanto hoje, me veio na cabeça frases de pessoas que conheço. Muitas dizem tanto, tantas vezes a frase: “gostaria de fazer”, “gostaria de ser”, “ah! quem sabe eu consigo fazer isso mais pra frente”. O caso é que, desde que as conheço, essas frases se aplicam às mesmas coisas, aos mesmos objetivos, alguns dos quais, surpreendentemente eu realizei. Posso não ter persistido pelo tempo ou período que eu gostaria, mas realmente, posso dizer: realizei!
O que houve então? Sou uma completa atrapalhada, por vezes completamente deprimida, completamente desistente, completamente perdida. Por que então, pude atingir certas metas e objetivos que tantos outros, ditos “normais”, não puderam? 
Eis a resposta: impulsividade.
Lenine já diria: "pra moldar, derreta". Quantas coisas eu não teria hoje, se não houvesse derretido impulsivamente tantas outras...
Existiria, então, vantagens em uma das maiores desvantagens de um TDAH?
Talvez. Já que a impulsividade que nos atira em mar aberto é a mesma que nos faz alcançar novos, e outrora “impossíveis”, portos.




"Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar"


Milton Nascimento.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

TDAH Piromaníaco

Devo começar o assunto com uma pequena historia real:
Eu e minha irmã mais nova estávamos a observar a noite, comendo nozes e passas e... claro, usufruindo da deliciosa pratica de fazer fogueira (no quintal dos fundos da casa dela). Muito prevenida e sempre alerta a qualquer possibilidade de perigo mortal, ela deixou um balde cheio d’água por perto. E lá íamos nós, queimando madeira e colocando embaixo delas umas... folhinhas de papel. Papo vai, papo vem, vento vai, vento vem e umas folhas de papel passearam até a parede em frente ao lugar onde estávamos sentadas. Mais que rapidamente ela gritou em desespero:
ÁGUA! ÁGUA! 
E lá se foi o inteiro balde de água em toda a fogueira que assumia ares grandeza.
É claro que diante da cena desesperada frente a um protótipo de incêndio e a fumaça impestiando o quintal, tivemos de rir loucamente.

Agora sim, explicação:
Não existe nada pior do que ser uma fogueira quentinha e controlada e abrigar, no interior de nosso ser, folhas de papel soltas.
Aquele acúmulo inexplicável de energia, que de tão grande e necessitado de algo a altura, teima em não sair. Pois é. Uma hora essa energia sai. Aos poucos ou em generosas porções de agressividade. Tenho uns quadros mentais em que me vejo lutando muay thai. Sou da paz, mas admitidamente me dá uma sensação de vida e o ímpeto de sair da cadeira. É aquela maldita busca pela pastilha da ação que tanto precisamos, um verdadeiro vício: o jato de adrenalina, a droguinha da felicidade, as folhas soltas querendo voar ao sabor do vento.

Já não acalento mais ilusões de mudanças totais e permanentes.
(Deus sabe a luta que se trava pra não deixar o Hulk sair e como, de repente, a sra. Razão foge com o amante Bom Senso e deixa pra traz só o marido  traído do Sr. Passional.)

No entanto, tenho conseguido mudar o refrão da música: ‘se depender de mim, não vou até o fim.’
O remédio certamente deve estar fazendo seu papel (li na bula, inclusive, que ele é usado pra controlar agressividade, além de outras maravilhas). E mais importante, o autoconhecimento. A qualquer sinal mais brusco de faíscas, grito histericamente:
ÁGUA! ÁGUA!

E no final, tenho lucrado ótimas gargalhadas. :p



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Saudades.


A gente sente saudade de coisa ruim. Sim. É a saudade que dá o desejo de viver o ruim tudo de novo, pra ver se na segunda chance, a gente dava um jeito de o ruim ficar bom. E a saudade pode ser tanta que não importaria quantas vezes a pessoa tivesse de viver o ruim, conquanto houvesse a esperança do bom.
Essa saudade é como a pedra de Sísifo, que o aprisiona num esforço sem fim e sem sentido. 
Pensando que nunca gostei de histórias da mitologia grega, lembrei da Saudade do Renato. “De tudo que eu ainda não vi...”.

E falando nisso... que saudades de Legião Urbana, hein!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

TDAH em plena forma.


 É incrível como uma simples pena deixada cair por um pássaro idiotamente desavisado pode fazer pesar ainda mais um dia já cheio de obrigações.
Uma coisa que não consigo de fato entender é o por quê da confusão paralisante. Não, sério... qualé a da confusão paralisante? RS Coisas a fazer esperam pra serem feitas e a vida serve pra isso: pra fazer coisas, fazer coisas. E por que simplesmente sei das coisas a fazer e não as faço SIMPLESMENTEEEE??? Às vezes é fácil. Mas por que não continua fácil todos os dias, enquanto eu viver, até que a morte me separe? (Odeio acúmulo! Então por que o deixo entrar??? Hein?!)
É fácil, não é nada humanamente impossível. Pensar nessas coisas a fazer deixa a cabeça pesada e cansada como se eu tivesse trabalhado uma semana sem dormir. Ela fica aí... se distraindo com O MUNDOOO!!! (Argh!)
Manhosa essa maldita cabeça! Não quer comandar o corpo direito. Acho que ela não tem perfil de liderança. Não... acho que eu deveria nomear outra parte do corpo pra reger essa joça. Mas qual? Qual?

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"Tudo passa, tudo sempre passará..."


Sempre soube. Mas dessa vez foi diferente. Veio como uma espécie de iluminação.

Pensar no amanhã e sentir um frio na barriga, de medo. Medo de ter que encarar, de não ter saída porque ele vai chegar. E esse a gente não consegue postergar de jeito nenhum. 
O medo é verdadeiramente paralisante. Comprime o peito e faz um peso enorme nas costas. É solitário. Totalitário. Passei tanto tempo imersa nesse medo que agora, pela primeira vez em muito tempo (com a clareza que a informação, autoconhecimento e um BOM médico proporcionam), paro no meio de alguma tarefa idiota e abro um sorriso. Abro um sorriso quando percebo que... tá tudo bem.

No passado, sempre que experimentava melhora, ficava crente de que dali por diante seria diferente. Logo ia assumindo compromissos, mirabolando milhões de planos.
Mas claro, a rotina cheia e fechada, o acúmulo de obrigações, tudo começava (novamente) a perder o sentido e a dar lugar à postergação, à ansiedade, à desorganização, confusão, depressão. Ou às vezes o cansaço mental simplesmente, a depressão, levava à postergação, ansiedade e por aí segue a fila dos sintomas.

Ontem, no entanto, me peguei no pulo do gato. Rotina começando a apertar, cabeça começando a cansar. Senti o cheiro da fumaça. Senti medo.
“Mas e todas essas cabeças que ainda estão a pleno vapor...?"
Não. Não. Na na ni na Não! Não se compara cabeças! (Eureka!)
Não posso comparar as tonalidades de cinza pra ver em qual se encaixa a minha massa cinzenta.
Hora de reavaliar prioridades. E minha cabeça é, sem dúvida, uma delas.

Sempre soube. Mas dessa vez foi diferente. Veio como uma espécie de iluminação.
Pensar no amanhã como vida e não como obrigação, é maravilhoso. Um sentimento de gratidão simplesmente. E agora é uma boa hora pra abrir um sorriso e perceber que sim... tá tudo bem.




quarta-feira, 8 de agosto de 2012

TDAH nas entrelinhas.

Já fazia muito tempo que meu pai não dava nenhum indício de chilique. Pelo contrário, andava como um excelente pai. À vista de todos e à minha também. O ponto é que todo mundo cansa e quando um doente da cabeça se cansa... tudo pode realmente vir à abaixo. A falta de percepção de limites junto com a incapacidade de dizer não acaba por trazer à tona um ser muito amargurado, pra dizer o mínimo, e que conheço bem desde a infância. É como uma granada sem pino e a explosão é violenta.
Hoje percebo: vem à tona um alguém que verdadeiramente sofre a ponto de fazer pena a quem entende e compreende a natureza desse tipo de sofrimento, no caso, sofrivelmente, eu.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

"... to win some or learn some."


Acordei hoje e coloquei os óculos. Estavam em cima da mesa da cozinha. Meu pai olha pra mim e diz:
“Achei esses óculos aí... dentro da máquina de lavar. Saiu a lente e eu coloquei de volta...”
@.@

Ontem à noite fui tomar o remédio que deveria tomar à noite. Abri o armário, abri o frasco do remédio que deveria tomar de dia (que eu, claro, já havia tomado de dia) e mandei pra dentro. Dois minutos depois fechei os olhos e bati na cabeça. Abri o armário, peguei o da noite, o bastardo caiu no chão, eu o peguei novamente, lavei e tomei! HÁ! Ele lutou bravamente, mas eu venci! :p
  
Sonho de hoje:
Estou dando aula pra uma pessoa em casa, quando me ligam da escola dizendo que eu deveria estar lá (“seu aluno está na sala aguardando, você já está chegando?”). Logo em seguida uma pessoa aparece dizendo que eu me esqueci de ir à casa dela ajudá-la com uma tradução.
Uma onda de pânico faz um TCHUPÁF na minha cara. E no meio da confusão uma amiga, do tipo baiana arretada, me aparece e diz simploriamente: “por que você não usa post-its?”
0.º

O armário está em ordem já faz semanas (éééé!). Ontem tirei os brincos e joguei na mesa pra guardar depois. (Trilha sonora de Psicose). Não! Virei-me corajosamente, peguei os brincos e os coloquei junto com todos os outros da mesma espécie pra que dormissem tranqüilos. Não é uma questão de neurose, veja bem. É uma questão de manter Dr. Jekyll. E afastar Mr. Hyde.
:)

Ah! sim! E hoje fez sol.
^^


domingo, 29 de julho de 2012

Pó do Pilim pim pim.


A princípio eu achava que antidepressivos e afins eram poções viciadoras que deixavam a pessoa completamente out-of-the-universe, com olhos estatelados como ovo com gema mole.

Daí, dor vai, dor vem. Confusão vai, confusão vem. Desorganização vai, desorganização vem. Projetos inacabados vão e não voltam mais.
Remédios são reconsiderados. Tomamos um, tomamos outro, trocamos doses e funções. Pode ser voltado pra um problema, pode ser pra dois. (E sempre consideramos que pode ser pra nenhum também).
O tempo passa e é difícil não acreditar, em algum momento, que gastamos um suado dinheirinho com placebos. Ficamos hora bem, hora mal. E devo dizer que muito mais horas mal que bem. Então qual é a finalidade dessas porcarias?
Posso comer a língua com sal, mas a perseverança traz alguns frutos meio surpreendentes.
Meu irmão hoje olha pra mim e diz: “Puxa... como você é legal quando está bem da cabeça!”
Dei risada.
Estar bem da cabeça? Estar bem da cabeça...
Paro por um momento e lembro que tenho uma cabeça. (Já fazia um tempinho que ela não pesava, não gritava, não babava, não se debatia. Não arquitetava rotas de fuga, nem ameaçava se rolar corpo abaixo... Logo, me esqueci dela.).
Mas estava ali! Tão leve quanto um comprimido de Wellbutrin e de Neural juntos...






sexta-feira, 27 de julho de 2012

Postergação + Postergação = ...


Um casal de amigos irá viajar para os Estados Unidos. Me disseram isso com meses de antecedência, super alegres.

Uma amiga me emprestou um livro de “Inglês para Viagens” para uma das minhas aulas. Marquei algumas vezes com ela pra poder devolver o livro, mas claro, eu me esqueci. A primeira vez esqueci que tinha marcado com ela. A segunda vez esqueci de confirmar. A terceira, deixei pra responder um e-mail que ela me mandou sobre encontrá-la depois do trabalho e acabei não respondendo em tempo hábil. Por último, marcamos o horário, mas eu havia esquecido o celular pra ligar pra ela e saber o local exato. (E olha que maravilha: SE dessa vez eu tivesse levado o celular e ligado pra ela... eu teria esquecido o LIVRO!!! – Derrota!)


Daí um belo dia meu irmão chegou do trabalho e despejou umas coisas em cima do livro. (Nãooooooooooooo). Corri o chariots of fire, mas foi tarde demais. Amassou a capa.
Ok. Assim sendo... comprei outro livro, ficando agora com 2 exemplares.
Pensei: devolvo o livro novo e mando o antigo via correio pros meus amigos antes da viagem. Vai ser mais útil a eles do que a mim.

Mas ai, fala sério! A quem quero enganar?
Passei todos os dias da semana, durante mais de 1 mês, praticamente na frente do correio. Precisava só entrar pra perguntar valor de postagem e tal... mas eu sempre pensava: “hum... deve estar muita fila... ainda tem tempo. Depois eu passo aqui com mais calma.”
A fila que devia estar grande, eu que estava com fome, algum outro compromisso, enfim. Criei milhões de desculpas pra escapar de fazer algo que eu não queria: simplesmente fazer um breve desvio de caminho e perguntar qual o preço e prazo de entrega da postagem. (Um amigo tdah me disse uma vez – para meu imenso consolo -  que as coisas que mais lhe empatavam a vida eram também as mais simples de resolver, mas se tornavam um problema a ser postergado por serem chatas e demandarem uma atenção que ele não queria dar no momento – ou em momento algum. – Acho que ele tinha razão, em partes. Me parece que as coisas mais simples são as que mais postergamos).

Agora vamos à soma: o casal de amigos viaja em dois dias. Hoje passei no correio porque agora é tudo ou nada. A postagem demora 3 dias pra chegar.
Resultado final:
Eu estou com 2 livros sem a viagem + Eles estão com a viagem sem 1 livro + Minha amiga está sem o livro e sem a viagem =




domingo, 22 de julho de 2012

All you need is love

Eu estava conversando com uma amiga sobre o amor e a felicidade em um relacionamento. Para uma pessoa com problemas emocionais, o amor causa uma certa preocupação.
Aparentemente temos uma distinta incapacidade de autocontrole, ou o controle de certos aspectos do nosso comportamento. (Não estou dizendo que somos psicopatas, fazendo o que queremos sob a "desculpa" de um problema emocional). Podemos ser quentes e meigos, também frios e rudes. Nós podemos rir e contar piadas ou chorar e ficar melancólicos. Podemos estar presentes e de repente desaparecer. As oscilações de humor nos fazem uma montanha russa.
Além disso, somos intensos, o que significa que podemos entrar “numa briga” por quase tudo o que realmente acreditamos ou consideramos importante. Muitas vezes tive de explicar às pessoas que eu não estava com raiva ou qualquer coisa assim. Eu estava simplesmente falando com paixão sobre algo que me desperta paixão. É natural  expressar idéias de forma visceral, não é? Resposta: Não, não é. Para os iguais, talvez, porque estes seres mais “sensitivos”  percebem a diferença entre uma defesa empolgada de um ponto de vista, de uma reação estúpida e não inteligente do ponto em questão. Não existe visão mais concreta dessa situação que a de uma família italiana em uma reunião anual: eles argumentam, eles batem na mesa, eles gritam, eles ficam vermelhos, eles se abraçam apertado, e riem. Loucamente! Mas para uma pessoa de fora a visão é um tanto assustadora! E assim somos nós e nosso comportamento para com a pessoa que está ao nosso lado. (Somos assustadores.)

Minha amiga surgiu com a solução de ouro, dizendo que é apenas uma questão de “suavizar o áspero, suavizar é a palavra, mostrar e dizer as coisas certas", quais sejam: doçura, bondade, beleza e meiguice:

 - Oh querido, eu estou chorando porque eu ahn ... tive uma briga com o...cachorro da vizinha que não pára de latir ...! Mas eu te amo, eu te quero, eu preciso de você, eu te adoro! Me abrace forte meu super-homem!
- Oh querida, vem cá!

(Pausa para OH MY GODÍNES!)
Voltando. Concordo plenamente que falar sobre problemas de saúde é um problema. Eu realmente não acho que as pessoas deveriam começar relacionamentos com base nisso. Mas vamos ser Frank: o que neste mundo eu iria dizer durante um surto de lágrimas (além da coisa do cachorro)? "Oh querido, eu senti muito sua falta, por favor, me beija"? Outra sugestão dela foi dizer: "Eu estou indo pro mercado" - daí se chora horrores com os amigos pra voltar pro bonitão completamente recuperada! Outra seria ir ao banheiro, chorar com o rosto enterrado em uma toalha para evitar ruídos e, em seguida, sair e dizer que é um terrível resfriado (realmente não achamos que é possível cobrir com maquiagem um rosto muito vermelho).
Sim, sim, ser a namorada que molha a manga da camisa do namorado com lágrimas é chato, é cansativo, é deprimente. E não é isso que queremos em um relacionamento, é?
(Não, não é!)
Mas você sabe o quê? Pois é! Isso não funciona! Nós não podemos controlar as lágrimas quando querem sair sem razão alguma. Não podemos rir de forma convincente quando estamos cansados ​​de fazê-lo por muito tempo. Não podemos falar mansinho, quando é difícil até para respirar.
E não estou falando apenas de lágrimas, não. Estou falando dos outros comportamentos "perturbadores" que infelizmente nem sempre conseguimos controlar (apesar de grandes esforços e melhorias), tais como agressividade, impulsividade, irritabilidade, períodos anti-sociais e assim por diante, misturados com nossos traços de personalidade (forte, claro. Afinal de contas, somos fortes!). - É impossível ser uma Playboy bunny quando se está prestes a comer a própria mão pra evitar a probabilidade de bater em alguém. (E eu sei o que você, leitor, está pensando: "Todo mundo fica com raiva de tempos em tempos" ou "todo mundo fica anti-social às vezes, ou diz algo rude" É verdade, mas há uma diferença, sabe?                                                                                                        

                                 Fre        ci          e INTENSIDADE.
                                        quên    a

Você pode facilmente entender o que quero dizer se viver uma estreita relação afetiva com um TDAH por um tempo. Existe um esforço enorme pra evitar magoar a quem amamos. Exercer autocontrole é algo que almejamos e desejamos. Demonstrar que nos importamos, que estamos tentando. E quando falhamos, a dor e a culpa são realmente muito grandes - quer sejamos mulheres, quer homens).

Como "suavizar" isso? Acampar no banheiro? E ele (quem quer que "ele" seja) não iria perceber? E se não percebesse, bem... honestamente, que tipo de ser humano gostaríamos de ter ao nosso lado? (Um tapado, eu assumo, é absolutamente o que não queremos.).
Queremos homens fortes que amam mulheres que lutam pra serem fortes todos os dias, melhores todos os dias, merecedoras de amor, e a quem possam orgulhosamente dizer:

You see everything
You see every part
You see all my light
And you love my dark
You dig everything
Of which I'm ashamed
There's not anything to which you can't relate
And you're still here…”
(Everything - Alanis Morisset).

sábado, 21 de julho de 2012

Gênesi.

Retomando relações melodramáticas, entra novamente o ser-molde a quem agradeço a formação de 75% do meu eu. Do eu que sou hoje. Toda vez que essa palavra (eu) sai da minha boca, eu deveria lembrar... de onde ela veio.
- Quer comer o que?
- Eu? Eu... eu... ahn... deixa ver... eu... eu quero...
Por motivos de praticidade e saco a decisão é tomada por outro “eu” que não o meu.

- Onde quer ir?
- Eu? Ah... Onde você quer ir?
- Pode escolher. É sua decisão. Onde gostaria de ir hoje?
- Eu... onde... onde eu gostaria de ir hoje... eu gostaria de ir... eu... eu...
- Quer jantar na casa do Armandinho?
- (Acho que eu não queria isso) Hum... eu... é. Pode ser. (Querer agradar é uma nhaca!) E “lá vou eu, lá vou eu, Hoje a festa é na avenida. No carnaval da globo. Feliz eu tô de bem com a vida. Vem amor...”

- Que curso você tá pensando em fazer? Que profissão vai realmente seguir? O curso técnico ficou pra trás mesmo? E o de Inglês? A faculdade... você fez praticamente 4 anos, certo? Não vai realmente terminá-la? Não vai retomar? E a casa? Você queria se mudar, né? Ta juntando dinheiro pra isso ou pra algum outro projeto? Vai continuar tomando remédio? Como anda sua concentração, já consegue focar em coisas e levá-las a cabo? Já consegue terminar um projeto iniciado? O que pretende fazer da vida?
- Eu ahn... eu... eu... eu... Hein?!

Se existe uma pessoa na face desta terra que tem uma certa ojeriza em ser comparado comigo, este alguém é meu pai. E eis que num belo dia de sol, enquanto eu lavava a louça, música entrou pelos meus ouvidos (obs: frases entre parêntesis aqui são minhas).
- Filha... não tem nada pior do que não saber exatamente o que fazer (não?!?!) Preciso me encontrar. Saber o que realmente vou fazer da vida. Eu não queria continuar com o trabalho que tenho (como todos, aliás). Não é bom ficar sem opções, mas também não é bom ter muitas opções e não conseguir decidir por nenhuma. Pensei nisso. Ou talvez aquilo. Ou talvez... aquilo outro poderia ser. Péra... já estou abrindo muito o leque de novo! Eu... eu... eu tenho que focar!
(aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahahhahahahahahahha)

Pois é... daí vem meu eu. Ou deveria ser “nós”? Somos assim: muito parecidos mesmo. Ambos com projetos iniciados e abandonados, ambos com muitas perspectivas e desejos impossíveis, ambos em busca da adrenalina do novo, ambos com um medo terrível de errar que nos paralisa, ambos com grandes explosões de raiva por aquilo que poderia ter sido não ser, ambos com cérebros hiperativos, confusos, desorganizados e extremamente impulsivos que permite que nos movamos, mas sempre dentro de um nítido caos. Estamos sempre fazendo algo com a sensação de culpa, por estarmos deixando de lado tantas outras coisas. Frustração, desapontamento e MUITA insegurança, tão típicos no funcionamento TDAH.
O ponto que nos diferencia é que identifico essa “característica genética” e tenho a chance de tentar amenizá-la. Não se dá o mesmo com ele.

Hoje no açougue consegui um progresso:
- O que vai querer mocinha?
- Meio quilo de patinho moído. (na lata!)
Talvez um dia ele também peça assim, simples, sem dúvidas entre moída ou bife. Patinho ou contrafilé. Autônomo ou contratado. Hippie ou engravatado.
Se não pedir meio quilo de tudo moído, será também um grande progresso.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

quinta-feira, 19 de julho de 2012

"Um segundo dilúvio..."


O sobrevivente

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de 
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Drummond.)



Esse post foi gerado por um e-mail que recebi:
“Mais uma noite sem dormir..... estou com os ollhos virados pra dentro da alma. Eles vasculham sem parar um tal de não sei o que. Não existe mais nada. Meu interior está vazio, oco, seco. Mas nada pára a busca... tem de haver algo, qualquer coisa que faça meu coração bater de volta. (...) Tomei tanto rivotril q estou estática. Não choro, mas o nariz não para de pingar. As lágrimas tem q sair por algum lugar.... é tanta dor... não sei como sobrevivo.... me enganando, me iludindo... mas nada acontece, nada muda. É sempre o mesmo eterno e ensurdecedor silêncio. A rotina que te leva a morte, ao assassinato dos sonhos e, já bem dizem que um homem está morto quando seus sonhos morrem. Então o q sou eu? O q sou eu? (Pausa para choro copioso, desta vez pelas fossas lacrimais...) Retomando: o q sobrou de mim? para o q? P continuar aki sentada, repetindo: ser ou não ser? eis a questão? ser, não ser, que me importa? nada mais me importa e faz muito tempo, meu coração secou de tal forma que eu não consigo respirar mais direito... isso é vida? isso é o que chamam viver? o q me falta? será q eu deveria me iludir como todo mundo? nãão, tudo ficará bem. é uma fase......maldita frase.Maldita fase. NÃAO É UMA FASE! não passa nunca. o pior é saber q vou terminar de te escrever, chorarei mais um pouco, dormirei e nada, absolutamente nada mudará. tudo estará do mesmo jeito amanhã.....”

Imagino que pra alguém que nunca passou por uma verdadeira crise depressiva (e de duração tão longa), ache um tanto absurdo e até certo ponto, ridícula essas palavras. Afinal, pra que ficar remoendo tristezas, oras. Bola pra frente, otimismo! “Ta tudo dentro da sua cabeça!”.
E é verdade. O problema realmente não é externo. O externo afeta o funcionamento de quem sofre algum tipo de depressão, mas teoricamente a pessoa deveria ser capaz de lidar melhor ou de maneira mais saudável e menos autodestrutiva com o que ocorre a volta dela.
Além de muitos conselhos do tipo “faça algo que te dê prazer”, existem listas infindáveis de coisas que se pode fazer pra melhorar o quadro fossa (embora segui-las confira mais esperança que resultados propriamente ditos) como: comer sardinha, sementes, suco de uva-maçã-maracujá plus camomila, tomar sol (que bom que é inverno), técnicas de respiração, ouvir música clássica e por aí vai...
Mas quando o negócio tá mal, mal mesmo, pode bater sardinha com sementes, regadas a suco de tudo, plus camomila, e virar tudo goela abaixo, debaixo do sol, respirando fundo, ao som de música clássica: nada. Nada uma ova! Na ausência de alívio, entra o desespero, que pode levar a pessoa a convulsionar por respiração curta e acelerada em meio ao choro.
Algo natural como respirar, comer, dormir, acordar, trabalhar, amar... assim: como cai a folha e brota a flor, deixa de existir. 
A cabeça anda às voltas por conta e vontade próprias. E às vezes só que o se pode realmente fazer é contar com amigos, médico, remédios... E esperar.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

"onde tudo pode acontecer..."

Um dos sintomas alistados em testes de avaliação preliminar do TDA é: "Distrai-se com muita facilidade com coisas à sua volta ou mesmo com seus próprios pensamentos, parecendo muitas vezes "sonhar acordado".

Ok. Isso é literal. É literalmente literal.
Lembrei de uma conversa que tive com uma amiga meses atrás, que ilustra a conseqüência que isso tem às vezes, quando o problema é agudo: 
- Oi. Eu estou sentada na cadeira... são 22 horas, 23:00... eu estou cansada, mas saber que tenho que levantar, ir ao banheiro, fazer xixi, escovar os dentes, tomar remédio, me mantém sentada na cadeira, estática.
- Isso não é nada! Comigo acontece no vaso. Só de saber que tenho de levantar, entrar no chuveiro, tomar banho, colocar a roupa... fico sentada no vaso, estática.

Sim. O “simulador de vida” dentro da cabeça tem tudo que existe na vida real e mais um monte de tralhas. Dias inteiros passam por esse “simulador”. Viajamos de Troller, pegamos onda, discutimos, abraçamos, trabalhamos muito, gargalhamos e choramos loucamente. Viver as coisas “mentalmente” parece ser quase uma ação compulsiva e muito difícil de controlar, exatamente porque “viajamos” quando nos distraímos e nos distraímos porque viajamos! (Frustrante!!!)
O bom de só "imaginar" coisas é que podemos falar qualquer coisa a qualquer hora pra qualquer um. E podemos “prever” certas situações e como nos sentiríamos nelas.
Mas constatar que corremos no parque, mas as pernas não se moveram, que terminamos um trabalho que nem sequer começamos, que fizemos um curso e não aprendemos nada, que viajamos mas não temos fotos pra lembrar, pode ser bem difícil. Agora, quando é com pessoas, aí sim temos um verdadeiro e doloroso problema: rimos com alguém que não ouviu a piada, demos um presente a alguém que não o recebeu, abraçamos alguém que não sentiu o abraço, dissemos coisas a alguém que só nós escutamos...

Pra mim, entender esse “sintoma” e poder explicá-lo às pessoas que amo foi muito importante e o maior dos alívios. Passei a entender que preciso dizer-lhes na vida real o quanto eu realmente as amo, o quanto são importantes e que não sou indiferente a elas. O remédio é outro aliado. Ele funciona quase como um alfinete, que estoura o balão antes que ele se perca completamente nas nuvens...

Aproveito também para agradecer muito aos meus amigos que mui pacientemente não se esqueceram de lembrar de mim e que muitas vezes foram me buscar mesmo lá, bem longe... no mundo da neura, no mundo da confusão, no mundo da tristeza, no mundo da lua... 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

"Especial para mulheres..."

A pia, ao que me parece, é um lugar universal de reflexão. (Pode lá parecer coisa de mulherzinha de avental florido e pantufas, que me importa?! Se querem saber o mundo é mais amável com elas do que com as que vestem camisa e salto agulha pra ir trabalhar).
Voltando à pia, não sei exatamente o que ela tem. Talvez a água que escorre pela torneira seja um convite companheiro e solidário à água que quer escorrer pelos olhos. É como o primeiro dia de terapia. Aquele em que temos de responder a fatídica pergunta: “o que te traz aqui?” - sinal silencioso de que podemos começar a embargar. É um lugar seguro: o que acontece na pia, fica na pia. Ou vai pelo ralo. E assim foi: um prato, uma lágrima. Um copo, um gemido. Os talheres, os soluços.
(TPM DESGRAÇAAAADA!!!).
Limpei o rosto!
“Oras, pelo amor! Onde está sua dignidade criatura de Deus?! Água, água no rosto! Ai... to bem!”
Melhor passar pano no chão. Fui pro tanque molhar o pano...
Buááááhahahahaha Ah...Buáhahahaha!!!
“Pronto, pronto! To bem... tudo vai ficar bem”.
Pano vai, pano vem... o cheiro de cloro se espalhando pelo ar... - minha família é macho! Aqui é cloro puro! Não usamos produtinhos feitos pra dar perfume na casa!
Bem, cozinha limpa, louça lavada. Agora era a vez do quarto (jogar água no banheiro seria o dilúvio).
Houve um certo alívio nessa hora, porque tenho conseguido manter uma certa rigidez comigo mesma. Já perdi as contas de quantas vezes chorei no meio de pilhas de coisas que não sabia de onde vinham nem para onde iam. O caso é de tal magnitude que existe gente ganhando muito dinheiro oferecendo coaching pra TDAs desesperados. O IPDA, por exemplo, oferece “Coach para gerenciamento da vida doméstica e familiar (especial para mulheres)”.  - O grifo é nosso. Demais, demais! Sim, sim, nós mulheres temos algo especial, com certeza!  hahahha 
Enfim... limpei o quarto, lavei roupa e coloquei as do guarda roupa pra tomar sol.
Dever cumprido. Hoje eu poderia ter sido uma fotógrafa de zonas de guerra, uma escritora de dramas psicológicos, uma vedete à la Belle Époque...
Mas eu fui uma exemplar dona de casa!
(Ok... com TPM histérica e neurótica. Mas fui!)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Sorria, meu bem. Sorria!!!

Por que algumas pessoas falam tanto, tantas coisas, tantas palavras que faz o tempo correr e não têm propósito algum?
Normalmente começa assim:
“Você não sabe! Meu primo vai casar! Sério!
Assim... tudo começou quando meus tios se conheceram. Era uma linda tarde de verão e fazia muuuito calor! Foi no ano de... de... ai... quando meu Deus... 1940? Não... 1942? Não, não... acho que foi 1940... então... minha tia era uma megera e deu o golpe no meu tio... “
E aí a história do primo vira a história dos tios, dos avós, dos cunhados, do cachorro do vizinho e da própria pessoa que está contando! E sempre se fala mal de alguém! (E o pior... quando conhecemos os envolvidos... vá lá! Mas essas coisas sempre acontecem com quem não sabemos nem se é feio ou bonito).

Tem também aquelas histórias piada-não-engraçada que quando alguém começa a contar, a gente já vai preparando a risada. (o ponto é só saber quando entrar).  Depois de uma, duas, três, vinte, trinta mil dessas, já me esqueço de tirar o sorriso da cara. Qual não foi a surpresa quando certo dia, já terminada a sessão delas, entrei no banheiro e, ao me olhar no espelho, vi o rosto do Coringa. Simplesmente não percebi que meus músculos faciais ainda estampavam um insano big sorriso.


(No caso dos TDAs, muitas vezes, quando o assunto não exige nossa participação ou contribuição ativa, ou quando não somos "úteis" ao que está sendo dito, ou quando este se delonga demais sem propósito ou perspectiva de fim, torna-se muito difícil manter o foco e quanto mais se tenta, maior o cansaço.
Vale lembrar que, para uma mente que já naturalmente produz zilhões de histórias e repassa zilhões de fatos o tempo todo, quase que incontrolavelmente, como um "chiado cerebral" ou um "motor de automóvel desregulado", coordenar e sincronizar informações "internas" com a enorme quantidade de informações "externas" que captamos, causa um inevitável e mui considerável desgaste mental - às vezes quase ao ponto da exaustão.) - Mentes Inquietas.

Não estou dizendo que não gostamos de histórias ou de ouvir pessoas. (Amo varar noite batendo papo com amigos, ouvir coisas engraçadas, ou escutar quem quer dividir um problema).
Mas existem horas e situações em que é preciso (e necessário) simplesmente “ouvir esse silêncio meu amor... no lado esquerdo do peito, esse tambor “.
(Arnaldo Antunes)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Sim eu façoooo...


Tenho de fazer uma tradução envolvendo vocabulário de business.
O problema é: eu não gosto de business. Pra fazer juz à verdade, eu detesto! Quanta adrenalina meu cérebro produziria ao descobrir o significado de A.M.G (Annual General Meeting) , de O.H.T. (overhead transparency) ou A.O.B - fácil confundir com OAB, não? – (Any Other Business)?
Resposta: o único jato de adrenalina produzido viria quando meu supervisor me chamasse atenção para o erro número 236782 por pura falta de atenção, sonolência ou tédio.
Pelo menos pra mim, trabalhar em escritório foi sofrido. Uma agrura, um suplício, praticamente um autoflagelo! Exagero?! Pois eis o que eu fazia (de verdade!): chegava naquele prédio monstro e gelado, sentava em minha baia, onde permaneceria pelas próximas 8 horas de vida e mandava um e-mail pra mim mesma, no endereço de e-mail pessoal, com as seguintes palavras:
“Se você ler isto em casa, significa que você sobreviveu mais um dia.”
Ficar 8 horas sentada no mesmo lugar, fazendo a mesmíssima coisa, todo santo dia? Há quem lute bravamente eu eu admiro muitíssimo! Mas o tédio mata minha gente!
É por isso que todas as vezes que tenho de lidar com algo relacionado a ‘bizines’ (ou, na verdade, com qualquer coisa que realmente não me desperte o mínimo interesse) visto o uniforme vermelho:
- Sim eu façoo...
- Anda Chapolin...
- Sim... é... Sim eu façoo....
- Vamos lá Chapolin!
- Tá bem... Sim eu façooooo...

Mas! Aí acaba o prazo! É barata voa:
- Oh! meu Deus! O que farei? O que farofa?!?!

HÁ! Agora sim: adrenalina corre, suor escorre, trabalho feito.

(Se existe um Chapolin dentro de mim, aposto que esse tonto é TDA...)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Run Forest, run!

Exercícios físicos viraram minha alternativa ao desespero. (Embora seja sempre bom manter uns comprimidinhos de Rivotril - uma amiga batizou de Raivotril - por perto, caso realmente não seja possível recorrer aos abdominais).
Explico: numa cabeça TDA - leia-se sem filtro - entra de tudo e ao mesmo tempo: obrigações, desejos, ansiedades, impulsos, sonhos, projetos, filmes (da minha vida, da dos outros, de Hollywood e europeus também), o que estou lendo, o que estou cozinhando, a roupa que a máquina está lavando, o que estou ouvindo (no caso agora, um poodle latindo - eles devem comer ração de pastilhas Valda). ¬¬
Só dentro das 5 primeiras categorias, pra exemplificar, existem muitas subcategorias que se abrem em leque, com milhões de possibilidades de análise – isso funde o côco!
Demorou, mas aprendi (com muito sofrimento e frustração): nessa hora não adianta gritar pela concentração. Quanto mais se tenta, mais dá vontade de chorar.
Decidi escutar o conselho:
Run Forest, run!!!
É isso. Corro lou ca men te!
Volto com as endorfinas, serotoninas e afins...  
Agora quando me vejo em situações de grande ansiedade, daquelas que podem fazer a gente comer o reboco da casa, ou matar alguém, faço levantamento de peso - não o da cabeça - dos que comprei na Centauro por 15 reais. 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Luvas de pelica.


Por que parece tão difícil identificar aquilo que nos faz mal e caminharmos na direção oposta, uma vez identificado?
Pior! Muitas vezes identificamos o mal e saímos correndo NA direção dele, de braços abertos como o Cristo Redentor!

- Vem desgraça! Vem ni mim!
Ela vê o colinho quente, e cai feito jaca madura nele. (Só aí já se foi uma perna).
Não damos pela falta da perna, como não damos pela falta da concentração, da alegria, da comida, do trabalho, dos amigos, de nós mesmos e do dinheiro gasto com lenços de papel.
Mas só isso?
Há há há. Eu rio na cara do perigo! (E viva o Simba!)
(Viva!)
Eu quero é mais! Vem desespero! Vem ni mim!
Minha irmã sempre diz: “Procure o Connor que há dentro de você!”
Encontrei. Estufei o peito másculo e lá fui eu! Em busca do meu troféu Joinha, da compensação pela dor, pela perseverança, pela esperança, pela idiotice! (Todo idiota merece um troféu Joinha).

E é numa dessas brigas tipo UFC, quando estamos caolhos e desdentados (mas vivos!), que alguém surge do nada e grita: “PÁRA TUDOOO!!!”, entra no ringue e nos dá um tapa com luva de pelica.

Pronto! Tiramos o cabelo da cara, enxugamos o rosto, viramos as costas e seguimos em frente.
(Descobri o problema, achei a solução: tenho um estoque de luvas de pelica, caso alguém se interesse). 

domingo, 24 de junho de 2012

Hiperfoco! Vamo meu filho!

Existem incontáveis momentos na vida da gente que martelam numa esquina cerebral qualquer: Ação, ação, ação! Que seja a ação mecânica e por que não dizer, sofrida, mas ainda assim algo concreto. Descobri que é melhor fazer algo e sentir nada do que fazer nada e sentir culpa.

Mas tem dias que não vai, eles se arrastam loucamente e os pensamentos ficam ali, todos atrapalhadinhos e encavaladinhos em fila (não indiana) esperando sua vez pra virarem ação.

HÁ! Haha! Hahahahaha!!!

Qual que?! Que ação que nada! Ficam todos lá, pensamentinhos histéricos, um empurrando o outro, puxando os cabelos, digna briga de divas! O pobre receptáculo deles, vugo cabeça, fica cansado, depauperado de tanto lero-lero, plumas e lantejoulas e ação que é bom: NADA.
Respira fundo, faz força, põem as mãos na caxola e...! E?!
A cara do desespero revela: Nada! Nadica de nada!
Corpo estático, parado, como... como uma planta! Isso! Uma planta seca e esmilinguida! E aí dá uma vontade loÚca de abrir a caixa craniana e libertar todos os mini-thoughts que habitam myself!

Há esperança, entretanto!
Diz-se que todo TDAH precisa de um ponto, uma estrutura em que possa fixar seu emaranhadinho de pensamentos descontrolados antes de queimar as nozes.
Quando esse ponto não é um daqueles problemas de ordem existencial, dramático ou lunático... há que se comemorar!
É quando achamos aquele algo super especial (útil ou inútil) e as sirenes tocam:       
- Hiperfocoooo!!!
E os pensamentos se ordenam, engrossam a voz, vestem uniformes de bombeiro e descem pela escada de incêndio:
Action!

sábado, 23 de junho de 2012

Das pequeníssimas coisas...


Sei, sei, sei que a vida deve ser vivida em equilíbrio e a busca dele é o que deveria guiar um ser humano de bem (e não estúpido). Ter o peito sempre aberto só explica a relação íntima entre ele e o desfibrilador.

Viver em uma grande metrópole gera algumas preocupações: garantir que ainda exista céu por entre os blocos de concreto, não ser atropelado por motoqueiros ou morto com uma baforada de diesel dos caminhões, sobreviver entre amontoados de carros, faróis, barulho, vitrines em liquidação e por aí vai...
As pessoas, buscando novidades que sirvam de combustível para continuarem ativas, vivem um eterno “e agora...” e descobrem o poder esmigalhador do “exatamente igual”.

Volto a pensar em Drummond: "As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase." Ênfase. Paixão mesmo, visceral, que enche os pulmões de ar e que alguns conseguem divisar nas pequeníssimas coisas, soltas por aí, camufladas: num cheiro, numa melodia, num gosto, num lugar ou até... em certos versos:

"Todo dia é de viver
 para ser o que for e ser tudo.
Sim, todo amor é sagrado
E o fruto do trabalho
É mais que sagrado, meu amor
A massa que faz o pão
Vale a luz do seu suor
Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver"
Amor de Índio


sexta-feira, 22 de junho de 2012

Não priemos cânico!

Voltando da terapia um dia, li o e-mail do meu irmão: “ a mãe precisa de mais atenção e está nos comparando com os filhos do vizinho”:
“Porque não somos como eles, que moram todos juntos – como uma família deve ser...?” (Eu havia saído de casa havia alguns meses).
Isso seria ideal, mas não conseguimos o feito, então... precisava dar mais atenção à ela (que não consegue, até hoje, largar o cigarro e acumula pra si, se é que é possível, mais problemas de saúde).

Não podia esquecer meu pai, que havia decidido no íntimo me enterrar - como retomaria a relação melodramática que sempre nos uniu? (Precisava assistir mais novela mexicana). 
Minha avó também reclamava atenção. Sonhei que ela tinha morrido - precisava visitá-la antes que o sonho se desse de fato. Ah! e uma amiga vinha me visitar sábado após muito implorar. Acabei sonhando também que ela estava em apuros e eu poderia ter ajudado, não fosse tarde demais. O quarto em sua habitual bagunça... precisava organizar toda aquela parafernália (botar fogo em tudo é um sonho secreto que revela minha aversão à arrumar e organizar coisas). E os livros de inglês: parados. Tinha que estudar mais, mas a falta de tempo comprometia esse projeto. E não podia deixar de organizar as finanças e as contas.
Ah! sim, meus alunos tinham dificuldades dantescas com o inglês, então precisava preparar exercícios extras e fazer a divisão de salas para o mais novo projeto criado, de última hora, pela coordenação da escola. E meus amigos? Não estava dando a necessária atenção a eles e nem me inteirando das últimas notícias mundiais (para ter assunto com as pessoas que habitam esse planeta). Precisava chamá-los pra ir em casa, que aliás, precisava de uma Extreme Makeover. E falando em Extreme Makeover, eu havia comprado uma bola de pilates e mais umas caneleiras, uns brincos, cores variadas de sombra, rímel, blush e gloss labial - há que se cuidar da aparência! Afinal de contas a aparência de um deprimido é deprimente! (Lembrei que precisava amolar o alicate pra fazer a unha e providenciar os esmaltes). 
E obviamente eu não podia esquecer de trabalhar nuns poemas para uma pessoa especial e comprar um presente, e ligar mais vezes, e dar mais valor ao romantismo! Além de melhorar o gênio forte e pouco submisso.
Ohhh! Eeee onde raios eu havia colocado o número de telefone do psiquiatra???

Eu estava meio atarantada, igual barata quando jogam Veja Multiuso (literalmente - isso mata baratas!).
Precisava ser mais bonita, mais feminina, mais carinhosa, mais bondosa, mais prestativa, mais atenciosa, melhor filha, melhor irmã, melhor serva, melhor amiga, melhor ser humano, mais saudável, mais racional, mais generosa, mais altruísta e organizada...
A vida é um eterno progresso. Existem os que evoluem e os que parasitam para sempre. Podemos ser melhores ou ‘viver esperando o dia em que seremos melhores. Melhores no amor, melhores na dor, melhores em tudo’.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Remédios - Nos fazem Frankeinsteins?


Quem já passou, sabe (cerca de 250 milhões de pessoas ao redor do mundo com certeza sabem): uma leve movimentação nas placas tectônicas e lá vamos nós: uma descida frenética e assustadora que pára, como diria um grande amigo, no porão do mais profundo poço. Lá dentro só uma pá com um lacinho delicado escrito: “encontre a saída”. E a gente cava! Saí cuspindo terra, mas lá estamos... do lado de fora. (De novo).

Foi no meio de uma dessas quedas e novas escavações que acabei saindo na porta do Dr. Sandro.
Quando se fala em tristeza, lágrimas e vontade de morrer, em menos de 5 minutos o ser humano sai da sala do psiquiatra com a receita, que ele acredita ser a da felicidade. Esperança é bom. E lá começa a via crucis...

Antidepressivos que trabalham com a serotonina baixam a dopamina (sim! quando nos fazem falta descobrimos que neurotransmissores têm nome!). Se a vítima tem problemas com a serotonina, que ótimo. Como meu caso era falta de dopamina (mas como saber sem testar?) quase fui a óbito.
E realmente funciona assim: tudo dá trabalho e não tem sentido. Então... por que fazê-lo? Por que comer? Por que levantar de manha e escovar os dentes? Por que sair de casa? Por que sorrir? Por que ter contato com pessoas? Por que trocar de roupa? Por que?
É claro que a essa altura não existe mais emprego, nem mais projetos, nem mais vida social.
Mas hein??? Desistir??? JAMÁS!

Substituindo uma substância por outra, as coisas mudam (não mudam?).
Pode-se aí experimentar ter mais energia, mais vitalidade, mais vontade, mais desejo, mais rapidez, mais agressividade, mais irritabilidade, mais impulsividade, mais instabilidade... (pausa para risos). E aquela pessoa chorosa e passiva transforma-se agora num vagão de trem desenfreado, numa Tilikum pronta a atacar as pessoas que mais preza. (pausa para o choro).
Oras... adicionemos aí então, um estabilizador de humor, ou um calmante, no meio dá até pra ter um psicoestimulante pra ajudar na concentração. Agora a pessoa pode estar mais amável, mais companheira, mais ativa, mais atrapalhada, mais perdida, mais louca, mais triste, novamente... NOVAMENTE??? Céus, e lá vamos nós de novo... 
(Quantas horas ficarei zelando pelas paredes dessa vez?)

“O que? Você está confuso? Quer saber por que me sinto assim? O que houve comigo? Por que ajo assim? Quem sou eu? O que quero e pra que vim?”

Pergunta valendo um milhão de dólares: “O que neste mundo faz alguém pensar que o despirocado tenha essas respostas e não esteja mais, muito mais que qualquer um, à procura delas também?"